
FRIO E INDIFERENTE
Frio e indiferente.
Ela havia passado várias vezes por ali, durante mais de cinco anos, e nunca observara o quanto aquele corredor era triste. Buscava em seus pensamentos entender porque aquele lugar onde ela lutava por levar vida se transformou em um corredor, mais um entre tantos no mundo, frio e indiferente.
Na mão um envelope, um pedaço de papel que pesava como a própria árvore centenária que se usou como matéria prima, ‘... a natureza agoniza como as vidas humanas...’ pensou. Olha para o lado e observa aqueles que assistiu por diversas vezes, levando o coquetel, alívio para o corpo e a palavra amiga, alívio para a alma.
Era uma mulher inteligente. Já aos 18 era independente e se dividia entre a batalha na Escola de Medicina e sua carreira de modelo profissional. Alta, magra, bela, perfil perfeito, seria 'top' em breve. Ganhou um concurso internacional e quando todos pensavam que ia assinar com uma agência famosa, jogou tudo pro alto e decidiu salvar vidas. Primeiro a dela própria, que estava ficando vazia como os pratos que lhe eram permitidos. Depois a do irmão.
Ele. A ‘ovelha desgarrada’ como era chamado pelo pai, desde o dia que entrou em casa com o exame confirmando ser soropositivo. Assumiu ser homossexual e foi expulso de casa. Assunto de jornal, família conhecida. A notícia tomou proporções de escândalo. O pai médico havia fundado um hospital para tratamento de portadores do vírus. Tinha orgulho em dizer que seus dois filhos estavam cursando a faculdade de Medicina. Porém não havia contraído o vírus por ser homossexual, e sim de uma ex-namorada, uma grande decepção amorosa e que anos depois lhe pregou mais uma peça, amarga.
É interrompida de seus pensamentos por uma mão que lhe toca os ombros, um sorriso conhecido. Um dos pacientes mais antigos, e por quem tinha grande admiração pela luta e vontade de viver. Quisera ela ter aquela mesma chama acesa em seu peito. Sentia que o mundo era frio como aquele corredor.
Anda um pouco mais e deixa o corpo cair pesadamente sobre uma cadeira. Se sente cansada. Havia poucos segundos que estava com aquele papel na mão, mas era como se tivesse levado séculos para caminhar pouco mais que vinte passos.
Ao ver um residente, lembra-se de quando formou, e da promessa feita àquele que tanto lhe apoiara nos anos de estudo: ‘... vou descobrir a cura para você meu irmão, meu amigo, para você e para todos mais...’
Ele não conseguiu esperar a promessa ser cumprida. O vírus foi cruel, atacou da maneira mais violenta, após o período de incubação, se manifestou ferozmente e em menos de dois anos levou sua vida. Mas deixou a promessa e o esforço de conseguir aliviar a dor de tantos outros que estavam juntos na mesma luta: viver.
Pensou onde havia errado ou como tinha acontecido e não encontrava explicações. Enquanto uma lágrima descia pelo rosto pensou nos filhos, apenas eles eram inspiração para continuar a lutar, aquilo que poderia se apegar. Frutos do amor entre ela e o supervisor bonitão do laboratório de análises. Quando se conheceram era tido o par ideal, a família o adorava. Cinco anos mais velho e recém formado era de uma família de médicos e tinha um futuro promissor. Tido como um bom rapaz. Descobriria ela anos depois do casamento que ele levava uma vida dupla há tempos, e os plantões noturnos não passavam de engodo para disfarçar suas puladas de cerca.
E foi aí que encontrou a chave. O envelope queimava em suas mãos. O peso de uma vida dedicada e a realidade cruel da decepção. O amor que cultivou pelo ex-marido, hoje um respeitado diretor de Hospital. Mais nenhum destes atributos tirava dela a marca que carregaria para sempre.
Caminha mais uns passos e ao olhar para uma janela vê seu reflexo. A imagem ainda era de uma mulher linda, jovem. Mas o semblante demonstrava toda a amargura da notícia que o envelope branco, com as iniciais do hospital trazia: um resultado soropositivo jogava por terra toda crença que ela tinha no amor e na compaixão.
Agora fazia parte da mais recente e dolorosa estatística sobre a doença: o grupo de infectados que mais cresce é o de mulheres casadas, infectadas pelos próprios maridos. Vítimas do amor. Ela se viu entre as milhares de Ana’s ou Joana’s que dia após dia passavam por seu consultório. E que viam suas vidas desmoronar como castelos de carta. Tornara-se um número frio e indiferente como as paredes do corredor que se estendia à sua frente.
Tentou mais alguns passos, porém lhe faltaram forças para suportar a dor que a vida lhe impunha. Olhou para parede branco gelo do corredor, e na busca por algo que desse apoio tentou alcançar a porta, deixou se cair no espaço vazio. A queda, como se um império estivesse em eclosão, sua vida já não era mais sua.
A queda durou séculos, ou foi apenas o tempo que parou? Ela já não sabia mais distinguir a realidade. Tudo aquilo que plantou como verdade, agora brotava como um fruto amargo. Se acreditou no verdadeiro amor, nas promessas do galante supervisor e a ele entregou sua vida, ali viu sua derrota. E acabou vítima do maior sintoma que a doença pode causar: o abandono. Abandono do marido que se foi com uma estagiária dez anos mais nova; abandono dos amigos que ao saber de sua dúvida, refugiaram-se em suas vidas, seus próprios problemas; abandono do pai, que lhe virou as costas quando decidiu ficar do lado do irmão e agora abandono da fé, na crença em si, na cura, na vida.
Chegou o fim ela pensou, e em um segundo de lucidez escutou a voz do filho menor, três anos apenas gritando: “mamãe, mamãe, eu te amo...”.
Ao abrir os olhos, viu o sorriso de um homem que a muito tinha saído de sua vida, não sabia quanto tempo ficou inconsciente, tampouco importava. O brilho nos olhos dos dois filhos que agora a abraçavam eram para ela como um renascer. Talvez fosse somente delírio, mais viu nos filhos a vida que pensava ter perdido, talvez ali estivesse a fé que precisava.
O pai, ainda com o sorriso reconfortante lhe beijou a fronte e com os olhos úmidos pediu a ela perdão, perdão por ter sido tão duro em suas escolhas, em suas decisões, e ter abandonado os dois filhos. Se fechado em seu mundo. Perdão por reconhecer que a culpa não era deles, e sim por ter deixado a família em um momento da vida, para se dedicar aos seus projetos. Perdão por abandonar o filho quando mais precisou dele, ter deixado para ela a luta por um pedacinho de si próprio, por alguém que era o que ele havia sido um dia. Perdão por ter deixado de lado os propósitos que tinham norteado sua vida por tanto tempo: salvar vidas, ajudar os mais abandonados.
‘-Estamos juntos nesta. Vamos lutar por sua vida juntos...”, e olhando para tantos outros que estavam ali pelo mesmo motivo completou, ‘...vamos lutar por todas estas vidas juntos.’
A vida às vezes é assim, separa e une corações pelos mesmos motivos.
Ela prometeu a si lutar com maior intensidade e dedicação, contra o descaso e o abandono, que pior do que maltratar o corpo maltrata o espírito do portador do vírus, tirando a esperança na cura.
No amor e força que o pai transmitia encontrou a esperança na cura.
No amor pelos filhos encontrou forças para lutar cada segundo por um segundo a mais de vida.
No amor por cada alma que dependesse de suas mãos e conhecimento encontrou um motivo para acreditar no espírito humano, e por ele fazer algo.
O maior dos sintomas de um soropositivo é o abando da família, amigos esperança. O coração de quem lhe impõe essa realidade é como um corredor de hospital: frio e indiferente.